sexta-feira, 13 de março de 2015

Apresentação - João Palma

A coincidir com o 40º aniversário do SMMP, decorre também o 19º processo eleitoral para os órgãos sociais do SMMP desde a sua fundação. Num universo de 40 anos e 19 eleições, apenas em 4 actos eleitorais - nos idos anos de 1979, 1980, 1984 e, mais recentemente, em 2003 - concorreram duas listas, tal como acontece este ano. Eleitos em actos eleitorais disputados, apenas o foram Artur Maurício (1979), Mário Torres (1980), Guilherme da Fonseca (1984) e, mais recentemente, depois de um longo interregno caracterizado pela lista única, Luís Felgueiras (em 2003).
 Valerá também a pena, para avivar a memória dos mais esquecidos e esclarecer os mais novos, relembrar os presidentes do SMMP nestes 40 anos:
- 1975/77 Mário Torres; 1977/79 Guilherme da Fonseca; 1979/80 Artur Maurício; 1980/82 Mário Torres; 1982/84 Mário Torres; 1984/86 Guilherme da Fonseca; 1986/88 Francisco Pinto dos Santos; 1988/90 António Cluny; 1990/93 António Cluny; 1993/95 Rui Bastos; 1995/97 António Cluny; 1997/99 António Cluny; 1999/01 Pena dos Reis; 2001/03 Pena dos Reis; 2003/05 Luís Felgueiras; 2005/07 António Cluny; 2007/09 António Cluny; 2009/12 João Palma; 2012/15 Rui Cardoso.
O início do SMMP, que se seguiu à revolução de Abril, caracterizou-se por anos de intensa criatividade e combatividade, protagonizados por eminentes juristas membros do Ministério Público.
Mário Torres, Guilherme da Fonseca, Artur Maurício, entre outros, afirmaram-se na realização de ideais de justiça. Numa época politicamente rica e diversificada, ideologicamente muito marcada, a que não foram, de todo, indiferentes, lograram, ainda assim, impor-se na comunidade jurídica como Homens da Justiça.
De inegáveis e reconhecidos méritos, afirmaram o primado da independência do poder judicial, sem se deixarem captar pela tentação da política nem capturar por esta. Foi sempre a justiça a «sua praia» e foi nela que se consagraram, a troco de nada.
Chegaram, os três, a juízes do Tribunal Constitucional, do qual Artur Maurício foi Presidente entre 2004 e 2007.
Depois daquele período inicial, a história do SMMP mais recente com quase 20 anos de lista única, apelava à necessidade de retomar a diversidade inicial, sem prejudicar a unidade. Não a unicidade, que sempre combati.
Em 2008 os estatutos do SMMP consagraram pela primeira vez o direito de tendência[1].
Durante o meu mandato como presidente abrimos o SMMP à sociedade civil, fazendo pontes com todos os sectores da sociedade, com todos os partidos políticos, no caminho da aceitação e credibilização da instituição como entidade aberta ao mundo exterior.
Na afirmação do SMMP como um sindicato livre e independente que dialoga com todos mas que de todos é igualmente equidistante.
Recentemente, numa iniciativa inédita a merecer aplauso, no sentido do reforço da democraticidade, a actual Direcção do SMMP deliberou apoiar financeiramente as listas que viessem a concorrer a estas eleições.
Batemo-nos, com fibra, mesmo contra alguns dentro do próprio Ministério Público, que insistiram na subserviência e servilismo ao chefe (deles), pela autonomia interna, tão ameaçada quanto a externa por alianças que o tempo se tem encarregue de esclarecer.
Defendemos destemidamente, como ninguém, colegas, associados ou não no SMMP, que viram o seu desempenho funcional atingido por interferências externas.
O que teria acontecido não fosse a força e a protecção do SMMP? Nisso não recebemos lições de ninguém.
Saúdo os elementos da Lista B concorrente aos órgãos sociais do SMMP. Com a sua iniciativa concorrem para o pluralismo interno, para uma maior legitimação de quem saia vencedor.
Nada mais pobre que não assumir a crítica e a divergência. Desde que o embate eleitoral decorra com o nível e a elevação próprias da responsabilidade social que temos como magistrados do Ministério Público.
Mas não se deve confundir coragem com temeridade. Por isso quero acreditar que ao decidirem candidatar-se o fizeram conscientes dos desafios que tal disponibilidade e aposta implicam.
Ao menos ousaram arriscar.
Pois há quem se acobarde na sombra, donde se tenta influenciar, manipular, instigar, ao sabor da conveniência pessoal que, obsessivamente, faz mover o mundo, em benefício próprio.
Também por isso estas eleições constituem uma experiência enriquecedora.      
Sou candidato à presidência da mesa da Assembleia Geral pela Lista A.
Acredito e bato-me por um sindicato livre e independente. Capaz de congregar magistrados de todas as sensibilidades políticas e ideológicas, unidos por um desígnio comum – sobrepor os ideais da justiça e da igualdade de todos os cidadãos perante a Lei a objectivos políticos ou individuais, quaisquer que sejam.
O que verdadeiramente distingue os magistrados é a capacidade de serem independentes, isentos, corajosos, responsáveis, sensatos, sérios.
E sê-lo em qualquer circunstância. No SMMP ou no CSMP, com ou sem poderes hierárquicos, no Tribunal ou na Rua.
Essa é a nossa força.
Nisso somos uma lista de continuidade.
É esse o grande legado do SMMP que a actual direcção também soube interpretar e desenvolver.
Dando provas de cultura democrática, inegável desapego ao poder e recusa do protagonismo o Rui Cardoso, a sua direcção, na senda de outros nos quais me incluo, fez um mandato e saiu.
Soube escolher o momento.
Esperamos ganhar as eleições. Esperamos sobretudo ganhá-las, desta vez, a alguém, a projectos com que não nos identificamos. E não apenas vermo-nos sufragados por um numero maior ou menor de associados em eleições de lista única.
Com a segurança e a confiança de quem acredita que o SMMP continuará a afirmar-se pela riqueza da sua dinâmica interna, pelo valor dos seus associados, pela capacidade de renovar, sem falsos paternalismos nem concepções perversas de democracia ou de pluralismo, sem egoísmos ou inseguranças de quem tema perder poder e influência.
Com a actual disputa eleitoral o SMMP já ganhou.
Seguramente ganhará também um Ministério Público que, agora entregue a si próprio tenta, finalmente, assumir as responsabilidades e funções que a Constituição e as Leis da República lhe conferem.  
Em 21 de Março, não haverá vencidos.
Acreditem! Com a vitória da Lista A ganhará o Ministério Público, ganharemos todos!
João Palma, candidato a presidente da mesa da Assembleia Geral



[1] (Artigo 5.º) (Direito de Tendência)
1. O SMMP admite a existência no seu seio de diferentes correntes de opinião, cuja organização, autónoma, é da exclusiva responsabilidade das mesmas, as quais se exprimem através do exercício do direito de participação dos associados, a todos os níveis e em todos os órgãos.
2. As correntes de opinião podem exercer a sua intervenção e participação sem que esse direito em circunstância alguma prevaleça sobre o direito de participação de cada associado individualmente considerado.
3. As correntes de opinião exprimem a sua participação e representatividade institucional também através da eleição dos representantes que integram a Assembleia de Delegados Sindicais.